A disponibilidade de atenção se esgotou. Não existe mais tempo disponível no dia das pessoas para consumir mais nada e isso pode significar o fim do anúncio pago.

A disponibilidade de atenção se esgotou. Não existe mais tempo disponível no dia das pessoas para consumir mais nada e isso pode significar o fim do anúncio pago.

Vivíamos no passado agoniados para arranjar conteúdo para nos manter informados. Usávamos livros, jornais e televisão aberta e ficávamos até ansiosos esperando o jornal ser entregue e o programa preferido começar na televisão.

Estamos no problema inverso agora... Temos tanta informação na ponta dos nossos dedos através da Internet que é trivial nos embebedarmos neste mundo, tanto que 40% da geração Z nos EUA já está se reconhecendo viciada nos seus telefones celulares.

Metade desta geração está ficando mais de 10 horas on-line todo dia, o que é um absurdo considerando que ainda precisam estudar, trabalhar, comer e dormir. É muito mais do que gastávamos em TV, jornais e livros.

O ponto que isso mostra é que estamos batendo no limite do tempo disponível de atenção das pessoas. Não há mais horas do dia para envolvê-las nos dispositivos on-line, e as plataformas são já tão viciantes que não existe mais como colocar mais estímulos para aumentar o tempo de atenção.

Isso tudo quer dizer que estamos entrando na guerra de roubo de atenção. Como não existe mais como aumentá-la, estamos todos buscando uma maneira de levar as pessoas a deixarem de fazer algo on-line para fazer outra coisa on-line.

Nesta batalha estamos caminhando rapidamente para o processo de consumo passivo sem necessidade de se pensar muito. Atividades mais elaboradas de conversação on-line, leituras de blogs longos e leituras de livros e e-books estão dando espaço para a coisa mais mundana: o consumo passivo de conteúdos leves.

Estamos na fase dos Youtubers bobos, Instastories, Snapchat de famosos e séries longas no Netflix.

Outro caso interessante é o do jogo Fortnite. A mania dos e-sports está transformando a experiência dos jogos como uma experiência a ser assistida passivamente em vez de jogada. Pesquisas estão indicando que 6 vezes mais pessoas assistem partidas do Fortnite do que jogam, o que mostra o dilema da empresa em buscar maneiras de sobreviver considerando que a base de clientes já está evitando interagir com o produto diretamente. Ou seja: a própria Fortnite está competindo a atenção com os eventos e-sports que usam a Fortnite.

Obviamente estamos lutando todos contra isso, tentando alocar um espaço do tempo para atividades mais complexas porque sabemos que nunca conseguiremos construir algo significativo sem muito estudo e trabalho duro. Só que se equilibrar nisso é difícil para gente, e ainda muito mais para as nossas crianças em crescimento.

O efeito prático disso tudo tem destruído vários mercados, em especial a imprensa/jornalismo, a televisão aberta, as redes sociais como conhecemos hoje e os mecanismos de anúncios pagos off-line e também on-line.

Conteúdo sempre se aproveitou da situação de que era material escasso e colocava no meio do material entregue anúncios e propagandas que interrompiam o nosso consumo. Era um jogo interessante porque barateava o custo de quem comprava o conteúdo e permitia que anunciantes apresentassem os seus produtos e suas ofertas.

Isso está acabando, com tanto conteúdo disponível não aguentamos mais um minuto sequer de propaganda. Chegamos ao ponto de trocamos de canal na televisão na hora da propaganda ou até desligar a televisão para ver algo no celular.

E estamos dispostos também até a pagar para não ver mais interrupção através de serviços como Youtube Premium e Spotify Premium, o que é a garantia final para o fim dos anúncios pois exatamente quem paga Premium é o que tem disponibilidade de capital para conhecer novos produtos e ser influenciado.

Ou seja, tudo o que implementar paywall para o acesso tende a não ser mais uma plataforma interessante para anúncio de massa, seja Netflix, Spotify, Youtube, etc.

Se o anúncio pago se tornar inviável e o marketing de conteúdo também não conseguir enfrentar o mar de conteúdos disputando atenção, como é que os novos negócios conseguirão se comunicar com as pessoas?